Existe uma diferença entre querer fazer algo bem e sentir que não existe outro modo possível de fazer que não seja a perfeição.
Ter padrões elevados, dedicar-se ao próprio trabalho, importar-se com aquilo que se produz ou querer desenvolver uma habilidade não são, por si só, problemas. O sofrimento aparece quando o erro deixa de ser entendido como algo inerente a tudo o que fazemos enquanto seres humanos e passa a ser interpretado como um problema de caráter, dedicação ou inteligência.
Uma apresentação que poderia ter sido melhor, uma palavra mal colocada em uma conversa, um detalhe esquecido em uma tarefa ou mesmo um ato falho (muito bem vindo) em análise podem ser momentos em que o “erro” é percebido por si e por outra pessoa. São situações que continuam sendo revisitadas e corrigidas mentalmente, às vezes por anos. Por vezes, mesmo um resultado favorável produz pouco ou nenhum alívio: sempre poderia ter sido melhor.
A partir de qual ponto estamos falando de algo além de padrões elevados?
Perfeccionismo não é simplesmente querer fazer bem
O psicólogo Thomas Curran, autor de A armadilha da perfeição, chama atenção para uma distinção importante: perfeccionismo e busca por excelência não são a mesma coisa.
Para uma pessoa com sintomas que se relacionam ao perfeccionismo é possível estabelecer objetivos difíceis, se esforçar e reconhecer, ainda assim, que os resultados terão limites? É possível se frustrar com um erro sem concluir que ele diz algo definitivo sobre si? É possível desejar melhorar alguma coisa e, ao mesmo tempo, reconhecer aquilo que foi produzido é suficiente?
O problema não está em querer alcançar um padrão elevado, mas no que significa não alcançar esse padrão. O medo de errar geralmente vem acompanhado de intensa auto crítica, auto punições, vergonha e a sensação de ter decepcionado a todos: a si e às pessoas das quais era esperado o reconhecimento.
Provavelmente, a pessoa perfeccionista sabe que “ninguém é perfeito” e racionalmente, poderá dizer aceitar que erra e vai errar, mas a dinâmica inconsciente e os sintomas produzidos revelam outra coisa:
O erro adquire um significado pessoal que impacta profundamente nas possibilidades de construção e reconhecimento da própria identidade.
Quando desempenho e valor pessoal começam a se confundir
Curran também propõe que não pensemos o crescimento do perfeccionismo apenas como uma característica individual. Vivemos em uma cultura na qual somos constantemente convidadas/es/os a demonstrar nosso valor.
Desempenho acadêmico, produtividade, carreira, aparência, relações, experiências, hábitos e até o uso do tempo livre se transformam em espaços de avaliação. Não basta trabalhar: é possível trabalhar melhor. Não basta descansar: é possível descansar de maneira mais produtiva. Não basta ter uma vida interessante: ela também pode ser apresentada, comparada e avaliada. Não basta aprender uma nova língua: é preciso ser primeiro lugar no aplicativo. Não basta se exercitar: é preciso cumprir toda a rotina de alimentação e exercícios melhor que suas amizades.
Nesse contexto, é compreensível que o reconhecimento adquira um lugar importante.
Isso não significa que a sociedade simplesmente “cause” o perfeccionismo. Pessoas submetidas às mesmas exigências podem se relacionar com elas de maneiras bastante diferentes, entra aí o inconsciente e a forma como aprendemos quem somos, quem são as outras pessoas, o que desejam e o que aceitável ou ideal para uma cultura. Os ideais disponíveis em uma época oferecem formas pelas quais conflitos muito particulares podem se expressar.
Para algumas pessoas, conseguir reconhecimento começa a se aproximar perigosamente de uma confirmação do próprio valor pessoal.
E, se fazer bem confirma alguma coisa sobre quem eu sou, falhar pode significar internamente a confirmação da indesejabilidade, da incompetência, por fim, da falta. Falhar pode revelar que existe um ser humano e não apenas o ideal.
Quando um erro deixa de ser apenas um erro
Há uma diferença importante entre pensar:
“Produzi algo que não me agrada.”
e sentir:
“Isso mostra que eu não sou tão competente quanto deveria ser ou como pense que fosse.”
Na segunda experiência, o erro ultrapassou aquilo que foi feito. Ele atingiu a identidade.
É por isso que a vergonha pode ocupar um lugar tão importante no perfeccionismo.
A culpa pode aparecer diante da ideia de não ter sido capaz de suprir o desejo das outras pessoas ou da cultura. A vergonha, por sua vez, frequentemente envolve a experiência de ser vista/e/o em uma posição na qual parece insuportável. Não é somente “há um defeito no que fiz”, se parece mais com “fui exposto”.
Uma crítica relativamente pequena pode então assumir dimensões enormes. Não necessariamente pela incapacidade de reconhecer os erros, mas porque ser confrontada com eles pode tocar em uma pergunta muito mais delicada: o que resta do meu valor quando não correspondo ao que acredito que deveria ser? Quando eu me vejo incapaz de atender ao que o outro me demanda?
A autocobrança pode surgir como uma tentativa permanente de nunca precisar descobrir a resposta.
“Se eu fizer tudo certo, posso garantir que nada dê errado”
A psicanálise permite acrescentar outra dimensão a essa discussão.
Freud observou, particularmente ao estudar o funcionamento obsessivo, maneiras pelas quais algumas pessoas procuram administrar a incerteza por meio do pensamento, da dúvida e do controle.
Isso não significa que toda pessoa perfeccionista tenha uma neurose obsessiva, nem que perfeccionismo seja um diagnóstico. Significa apenas que algumas das operações presentes no funcionamento obsessivo ajudam a compreender certas formas que o perfeccionismo pode assumir.
Existe uma fantasia particularmente sedutora aí: a de que seria possível agir sem correr riscos, desde que se pense suficientemente antes.
Revisar mais uma vez. Preparar-se um pouco mais. Antecipar todas as perguntas. Encontrar as palavras exatas. Considerar todas as possibilidades antes de escolher.
O problema? Nenhuma preparação elimina completamente a incerteza.
Falar é também não controlar inteiramente como seremos compreendidas/es/os. Escolher significa abandonar outras possibilidades. Entregar um trabalho significa aceitar que ele não será mais infinitamente aperfeiçoado. Relacionar-se implica não controlar completamente o desejo do outro.
Viver exige alguma tolerância ao improviso e ao que sai do script.
Quando errar parece insuportável, porém, o controle pode oferecer a promessa de que talvez seja possível escapar dessa condição: se eu fizer tudo corretamente, talvez consiga impedir aquilo que temo: ser exposto aos outros e a mim mesmo como alguém que falha/falta.
O problema é que sempre haverá mais alguma coisa que poderia ser controlada.
Aquilo que parece uma virtude também protege de alguma coisa
Há ainda outra contribuição interessante da psicanálise para pensar a autocobrança.
Freud chamou de formação reativa um mecanismo pelo qual uma pessoa pode desenvolver atitudes muito intensas em direção oposta a desejos, impulsos ou afetos que encontra dificuldade em reconhecer.
Isso torna algumas características aparentemente simples mais complexas.
Uma pessoa pode valorizar genuinamente ser responsável, cuidadosa, disponível, organizada ou correta.
Mas, em alguns casos, essas mesmas características também podem cumprir uma função defensiva.
A necessidade de ser sempre responsável pode tornar impossível reconhecer a vontade de abandonar uma responsabilidade. A necessidade de ser invariavelmente gentil pode dificultar o reconhecimento da própria agressividade. Ser sempre disponível pode proteger alguém do desconforto de admitir que, às vezes, simplesmente não deseja oferecer aquilo que esperam dela.
Nesses casos, deixar de corresponder ao ideal não significa apenas cometer um erro. Pode permitir que apareça alguma coisa de si que aquela pessoa aprendeu a considerar inaceitável.
Às vezes, a necessidade de ser irrepreensível diz tanto sobre aquilo que uma pessoa não se permite ser quanto sobre aquilo que deseja ser.
“Eu sei que não preciso ser perfeito, mas…”
Talvez por isso o perfeccionismo resista tão bem a argumentos racionais.
“Eu sei que ninguém espera isso de mim.”
“Eu sei que esse erro não é tão grave.”
“Eu sei que não preciso provar nada.”
“Eu sei que fiz o que era possível.”
E, ainda assim, alguma coisa permanece.
A psicanálise parte justamente da constatação de que saber conscientemente alguma coisa não significa necessariamente que passamos a funcionar de acordo com esse saber.
Freud se interessou por situações nas quais um conteúdo consegue chegar ao pensamento mesmo que partes dele sejam censuradas. Em seu texto A negativa, de 1925, mostra como alguém pode reconhecer intelectualmente uma representação sem que isso signifique aceitá-la subjetivamente em todas as suas consequências.
É uma ideia útil para compreender por que frases de autocuidado às vezes parecem tão insuficientes diante de uma autocobrança profundamente estabelecida.
Alguém pode saber perfeitamente que seu valor não depende de desempenho e continuar vivendo cada fracasso como se dependesse.
A contradição não significa falta de inteligência ou de autoconhecimento. Pelo contrário: às vezes a pessoa consegue explicar com enorme precisão aquilo que acontece consigo e continua, ainda assim, capturada pela mesma exigência.
Porque compreender uma regra não é necessariamente compreender por que precisamos tanto dela.
Talvez a questão não seja aprender a se importar menos
Quando o perfeccionismo produz sofrimento, uma saída aparentemente óbvia seria diminuir os padrões, cobrar-se menos ou simplesmente aceitar que “feito é melhor que perfeito”.
Essas ideias podem, às vezes, ser úteis. Mas não chegam ao centro da questão.
Para alguém que construiu parte importante de sua relação consigo ocupando o papel de competente, responsável, correto ou excepcional, abrir mão da perfeição não parece apenas uma mudança de hábito. Pode parecer uma ameaça à própria maneira de conseguir reconhecimento, pertencimento e segurança.
Por isso, talvez seja mais interessante começar com outras perguntas.
O que um erro parece dizer sobre você?
Diante de quem você sente que não pode falhar?
O que imagina que aconteceria se alguém percebesse que você não consegue dar conta de tudo?
Quando você aprendeu a ter medo de errar?
E, principalmente: quem você poderia ser se não precisasse demonstrar o tempo inteiro que merece o próprio valor?
Não é preciso abandonar a dedicação, deixar de desejar coisas difíceis ou aprender a ser indiferente ao que fazemos.
O importante é criar novas possibilidades de se relacionar com os próprios ideais em quais eles possam orientar desejos sem funcionar como condição para se considerar digna/e/o.
Fazer algo suficientemente bem não precisa significar resignar-se à mediocridade.
É admitir uma condição da qual nenhuma performance pode proteger: fazemos escolhas sem garantias, produzimos coisas imperfeitas, decepcionamos pessoas, mudamos de ideia e falhamos.
E continuamos sendo e existindo para além daquilo que conseguimos fazer perfeitamente.
E quando entender isso não é suficiente?
Perceber a própria autocobrança ou compreender racionalmente que não é preciso ser perfeito nem sempre transforma a maneira como o erro é vivido. Algumas dessas exigências podem estar ligadas à forma como cada pessoa aprende a buscar reconhecimento, sustentar uma imagem de si mesma/e/o e se relacionar com aquilo que imaginamos que as outras pessoas esperam.
A análise pode ser um espaço para investigar essas construções: não necessariamente para aprender a se cobrar menos, mas para compreender de onde vem essa cobrança, que função ela cumpre e quais outras formas de existir podem aparecer quando a perfeição deixa de ser uma exigência.
Recomendações:
Podcast Rádio Escafandro: A roda dos hamsters imperfeitos https://radioescafandro.com/2026/07/21/165-a-roda-dos-ramsters-imperfeitos/
Livro de Thomas Curran: A armadilha da perfeição: O poder de ser bom o suficiente em um mundo que sempre quer mais.
