“Mas ninguém percebeu isso antes?”
Essa é uma pergunta bastante comum entre pessoas que começam uma avaliação psicológica na vida adulta.
Às vezes, ela aparece acompanhada de outra dúvida: “se eu realmente fosse autista, tivesse TDAH ou alguma outra neurodivergência, não teriam percebido durante a infância?” Essa parece uma pergunta bastante lógica.
Afinal, quando falamos sobre condições do neurodesenvolvimento, estamos falando de características que não começaram aos 25, 30 ou 40 anos.
Mas talvez exista outra pergunta igualmente importante:
O que as pessoas ao redor daquela criança estavam preparadas para perceber? O que as ciências da saúde ofereciam na época em termos de instrumentos, diagnósticos e percepções?
Reconhecer uma característica psicológica nunca é um ato completamente neutro. Aquilo que chama atenção em uma criança depende também do que esperamos dela, do que entendemos como normal ou preocupante, da cultura em que está inserida, do acesso à saúde e à informação e das explicações que aprendemos a dar para determinados comportamentos.
E gênero atravessa todas essas coisas.
Quem aprendemos a imaginar quando pensamos em autismo, TDAH e Altas Habilidades?
Durante muito tempo, o conhecimento sobre algumas condições foi construído a partir de grupos bastante específicos.
Isso não ficou restrito aos livros.
Construiu também imagens culturais sobre como seria uma pessoa autista ou uma pessoa com TDAH.
Quando uma criança corresponde àquilo que familiares, professoras/is/es e profissionais aprenderam a reconhecer, suas características podem chamar atenção rapidamente.
Mas o que acontece quando não corresponde?
É possível que uma criança designada ao gênero feminino ao nascer que passa horas completamente absorvida por determinados assuntos pode ser entendida simplesmente como estudiosa.
E que uma criança que se esforça enormemente para compreender as relações sociais e demonstra receio em relação à interação pode ser descrita como tímida.
E se apresenta dificuldades importantes de atenção, mas que não interrompe a aula ou levanta constantemente da cadeira, pode passar anos sendo entendida/e/o como desorganizada/e/o, distraída/e/o ou alguém que “não se esforça o suficiente”. essa criança pode ter Altas Habilidades e, sem suporte, apresentar comportamentos parecidos com o TDAH ou ter TDAH e Altas Habilidades, mas não ter as Altas Habilidades reconhecidas porque a observação sobre seu comportamento está focada na redução de comportamentos hiperativos.
Isso significa que a mesma característica não é necessariamente percebida da mesma maneira em todas as pessoas.
Nós também aprendemos a performar gênero
Desde muito cedo, recebemos informações sobre como devemos existir.
Quem pode ser barulhenta/e/o? Deve ser agradável? Pode demonstrar raiva? Quem precisa cuidar das outras pessoas? De quem se espera delicadeza? Quem pode ocupar espaço? Quem é repreendida/e/o quando não percebe uma regra social?
Essas expectativas não determinam mecanicamente quem alguém será, mas participam da maneira como aprendemos a observar a nós mesmas/es/os e modificar nosso comportamento.
É possível que uma criança perceba que determinada maneira de falar produz estranhamento e começar a evitá-la. Pode aprender a observar outras crianças para descobrir quando deve rir, ou preparar mentalmente aquilo que pretende dizer, estudar interesses compartilhados por outras pessoas para conseguir participar de conversas e até conter movimentos que chamam atenção ou suportar silenciosamente ambientes sensorialmente difíceis.
Com o tempo, algumas dessas estratégias deixam até mesmo de parecer estratégias. Passam a fazer parte da maneira como aquela pessoa aprendeu a existir e se relacionar com o mundo interno e externo.
Mascaramento não significa que “não parecia autista o suficiente”
No autismo, utilizamos o termo mascaramento para falar de estratégias utilizadas para esconder, compensar ou modificar características que poderiam ser percebidas socialmente como diferentes. Algumas formas de mascaramento são deliberadas e outras podem ter sido aprendidas durante tantos anos que parecem naturais.
Isso pode produzir uma situação curiosa durante uma avaliação adulta.
A pessoa diz que não tem dificuldade para conversar, mas conta que ensaia conversas antes de encontros importantes.
Diz que consegue olhar nos olhos, mas percebe que precisa controlar conscientemente quanto tempo deve manter o olhar.
Diz que consegue socializar, mas precisa de horas ou dias para se recuperar depois.
Se olharmos apenas para o comportamento final: “conversa”, “olha nos olhos”, “tem amizades”, perdemos todo o trabalho necessário para produzi-lo.
Por isso, mascaramento não deveria funcionar como uma nova lista de sinais que precisamos encontrar para “provar” um diagnóstico.
Ele é uma das possibilidades que precisamos considerar quando existe uma diferença importante entre aquilo que é possível observar externamente e a experiência da própria pessoa.
Adaptar-se bem não significa não ter dificuldades
Há uma armadilha especialmente importante na avaliação de pessoas adultas.
Depois de décadas vivendo consigo mesmas, as pessoas aprendem coisas.
Criam rotinas. Escolhem trabalhos mais compatíveis com seu funcionamento. Evitam determinados ambientes. Encontram amizades com as quais precisam performar menos. Criam lembretes, alarmes, listas e sistemas complexos de organização. Aprendem intelectualmente regras sociais que outras pessoas parecem utilizar de maneira mais espontânea.
Às vezes, constroem uma vida que funciona justamente porque fizeram inúmeras adaptações.
Se perguntarmos apenas “você consegue fazer isso?”, a resposta pode ser sim.
Mas outras perguntas são necessárias:
Como você consegue fazer?
Quanto esforço isso exige?
O que acontece quando essa estratégia não está disponível?
Qual é o custo de manter esse funcionamento?
Em uma avaliação psicológica, potencialidades e estratégias de adaptação são informações tão importantes quanto as dificuldades.
O objetivo não é procurar uma pessoa incapaz de funcionar, mas compreender como aquela pessoa funciona: quais os custos e recursos mobilizados para existir?
Quando sofrimento recebe outros nomes
Outro caminho para um diagnóstico tardio acontece quando a pessoa chega aos serviços de saúde, mas suas experiências são compreendidas a partir de outras hipóteses:
São entendidas como ansiedade, depressão, transtornos alimentares, timidez, preguiça, falta de disciplina, problemas de autoestima ou personalidade difícil.
Algumas dessas condições podem realmente estar presentes.
Ter autismo ou TDAH não imuniza ninguém contra ansiedade, depressão, trauma ou qualquer outro sofrimento psíquico.
O problema aparece quando uma explicação encerra a investigação cedo demais.
Uma pessoa pode estar ansiosa. Mas por quê?
Pode estar exausta. O que está exigindo tamanho esforço?
Pode evitar situações sociais. Estamos diante de medo da avaliação das outras pessoas, dificuldade de compreender aquela situação, sobrecarga sensorial, experiências anteriores de rejeição ou várias dessas coisas ao mesmo tempo?
Diagnóstico diferencial não significa escolher rapidamente qual etiqueta combina melhor com um conjunto de sintomas.
Significa sustentar hipóteses diferentes tempo suficiente para compreender o funcionamento da pessoa avaliada.
E onde entram pessoas LGBTQIAPN+?
Pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ têm suas vidas atravessadas por diferentes expectativas sociais.
Uma pessoa trans, travesti, não binária, lésbica, gay, bissexual ou de outra orientação sexual e gênero pode ter passado parte importante da vida tentando compreender por que se sentia diferente das pessoas ao redor.
E “ser diferente” pode receber muitas explicações ao longo de uma história.
Às vezes, experiências relacionadas ao gênero ou à sexualidade explicam parte desse estranhamento. Outras vezes, depois de encontrar palavras e comunidades que permitem compreender melhor essas dimensões, algumas perguntas permanecem.
Também precisamos considerar que gênero não é apenas uma característica preenchida no cadastro da avaliação.
Ele participa das expectativas às quais uma pessoa foi submetida, das maneiras como seu comportamento foi interpretado, das punições e reconhecimentos que recebeu e das estratégias que precisou construir para circular socialmente.
Por isso, uma avaliação que pretende compreender uma pessoa LGBTQIAPN+ não pode simplesmente retirar gênero e sexualidade da história para encontrar, por baixo deles, uma suposta versão “neutra” daquela pessoa.
Uma avaliação não deveria procurar o estereótipo
Quando alguém chega à vida adulta perguntando sobre uma característica que esteve presente durante muitos anos, minha pergunta não é simplesmente:
“Como ninguém percebeu antes?”
Interessa entender o que foi percebido e que nomes isso recebeu.
Talvez a criança que hoje conseguimos compreender como sobrecarregada tenha sido chamada de dramática.
E a que precisava de previsibilidade tenha sido descrita como controladora.
A que tinha dificuldade com funções executivas foi chamada de preguiçosa ou lenta.
Talvez um interesse intenso tenha sido valorizado justamente porque combinava com aquilo que se esperava daquela criança.
Existe uma grande chance de que ninguém tenha visto sofrimento porque ela aprendeu muito cedo que demonstrá-lo tinha consequências.
Uma avaliação psicológica cuidadosa precisa reconstruir essa história.
Isso envolve considerar desenvolvimento, contexto social, gênero, estratégias de adaptação, potencialidades, dificuldades e também aquilo que diferentes pessoas entenderam sobre você ao longo da vida.
Uma escuta não patologizante não significa partir do princípio de que necessariamente existe um diagnóstico que outras pessoas foram incapazes de perceber.
Significa não começar pela pergunta sobre como alguém deveria parecer para ter determinado diagnóstico.
A pergunta é outra:
o que aconteceu na história desta pessoa e qual compreensão consegue fazer mais sentido diante de tudo aquilo que encontramos?
Às vezes, essa investigação leva a um diagnóstico.
Às vezes, leva a outra hipótese.
E às vezes permite finalmente compreender por que uma pergunta demorou tantos anos para conseguir ser feita.
Fontes e recomendações
Hartman, D., O’Donnell-Killen, T., Doyle, J. K., Kavanagh, M., Day, A., & Azevedo, J. (2023). The adult autism assessment handbook: A neurodiversity affirmative approach. Jessica Kingsley Publishers.
The Adult Autism Assessment Handbook — Jessica Kingsley Publishers
Price, D. (2022). Unmasking autism: Discovering the new faces of neurodiversity. Harmony.
Unmasking Autism — Penguin Random House
McQuaid, G. A., Ratto, A. B., Jack, A., Khuu, A., Smith, J. V., Duane, S. C., Clawson, A., Lee, N. R., Verbalis, A., Pelphrey, K. A., Kenworthy, L., Wallace, G. L., & Strang, J. F. (2024). Gender, assigned sex at birth, and gender diversity: Windows into diagnostic timing disparities in autism. Autism, 28(11), 2806–2820.
https://doi.org/10.1177/13623613241243117
Artigo completo — PubMed Central
Ogeda, C. M. M. (2020). Superdotação, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e dupla excepcionalidade: Um estudo de indicadores e habilidades sociais. Oficina Universitária; Cultura Acadêmica. https://doi.org/10.36311/2020.978-65-5954-012-9
Quinn, P. O., & Madhoo, M. (2014). A review of attention-deficit/hyperactivity disorder in women and girls: Uncovering this hidden diagnosis. The Primary Care Companion for CNS Disorders, 16(3), PCC.13r01596.
https://doi.org/10.4088/PCC.13r01596
Artigo completo — PubMed Central
Podcast: Introvertendo https://www.introvertendo.com.br



