Você conseguiu o emprego com o qual sonhou por anos, terminou uma formação desafiadora, recebeu uma promoção, aumentou sua renda e construiu uma carreira que sua versão de dez anos atrás provavelmente ficaria impressionada em conhecer.
Então por que a sensação de satisfação não vem?
Talvez você já tenha seguidos diferentes caminhos com coaches, influencers e até seu algoritmo se tornou um alvo de vídeos sobre positividade, amor próprio e gratidão.
As estratégias podem ter funcionado, mas parece que apenas arranham a profundidade do que você sente e pensa sobre si e sobre sua situação.
Persiste um padrão difícil: logo depois de uma conquista, o que parecia tão importante se incorpora à vida. O novo cargo vira apenas seu cargo. A aprovação se transforma em uma linha no currículo. O salário que parecia representar segurança passa a funcionar como referência para outro valor. Um objetivo alcançado modifica o ponto a partir do qual você olha para o próximo.
Pensar na próxima conquista parece tirar o sabor da conquista atual. E esse pensamento chega tão rápido que mal dá tempo de comemorar o presente.
Se o problema fosse apenas não ter chegado longe o suficiente, chegar deveria resolver.
O que uma conquista promete?
Normalmente, conquistas profissionais e acadêmicas significam muito mais do que uma mudança material ou de título.
Um emprego pode representar dinheiro, mas também independência. Um diploma pode ser uma formação e uma confirmação da capacidade. Uma promoção pode trazer novas responsabilidades e funcionar como reconhecimento externo sobre sua competência.
Ser escolhida/e/o entre várias pessoas pode responder, por algum tempo, a uma pergunta mais difícil:
“Eu sou boa/e/o o suficiente?”
Nossas escolhas profissionais participam das histórias que construímos sobre quem somos. E, na sociedade em que vivemos, nossas identidades se tornam profundamente atreladas ao que fazemos profissionalmente.
Desde cedo somos interrogados sobre “o que você quer ser quando crescer?”, e essa pergunta é percebida, mesmo que nas entrelinhas, como uma pergunta relacionada à carreira que uma criança gostaria de seguir. Nos perguntam sobre carreira antes mesmo de termos uma base sólida sobre quem somos.
Talvez você tenha sido “a criança inteligente”, a pessoa de quem esperavam grandes coisas, quem precisava construir uma vida diferente da família ou quem encontrou no desempenho um lugar particularmente seguro para conseguir reconhecimento.
Existe uma construção do próprio desejo atrelado às expectativas alheias que pode aprisionar a própria identidade.
Trabalho e reconhecimento
Reconhecimento profissional não é uma necessidade imaginária que deveríamos superar para nos tornarmos suficientemente seguras/es/os.
Nesse sentido, Christophe Dejours, ao estudar as relações entre trabalho e sofrimento psíquico, atribui ao reconhecimento um lugar importante. Trabalhar não significa apenas executar uma tarefa em troca de salário. O trabalho coloca parte do que nos torna nós mesmos em jogo: esforço, inteligência, invenção, capacidade de lidar com aquilo que a atividade real exige.
Existe sempre uma distância entre o trabalho prescrito (o que vem descrito no contrato como sua função) e aquilo que efetivamente precisa ser feito.
Quem trabalha conhece bastante bem essa diferença.
Nenhuma descrição de cargo prevê todos os problemas que aparecerão numa terça-feira qualquer. Protocolos não conseguem antecipar completamente as pessoas, as falhas, urgências, improvisos e decisões que fazem parte do trabalho real.
Essa distância entre o trabalho real e o prescrito é onde o sujeito emerge no trabalho. Onde quem você é aparece. Sua forma de existir, de lidar com o mundo, de lidar consigo tem tudo a ver com isso.
Por isso, ser reconhecida/e/o pelo trabalho pode ter efeitos que ultrapassam uma avaliação objetiva de desempenho. Para Dejours, o reconhecimento participa inclusive da relação entre trabalho, identidade e prazer.
A ausência de reconhecimento, capacidade de se expressar dentro da função e de identificação com o trabalho produzem sofrimento.
Talvez você não esteja insatisfeita/e/o porque é incapaz de reconhecer aquilo que conquistou. Pode trabalhar em um lugar que recebe cada vez mais de você e devolve pouco reconhecimento, ainda que o salário seja bom. Ou perceber que sua competência produz apenas novas demandas. E ainda que realizar um trabalho complexo que se torna invisível justamente quando é bem feito.
Antes de perguntar “por que preciso tanto de validação”, talvez valha perguntar também:
Eu me sinto eu no meu trabalho? Eu me sinto eu em outros momentos além do trabalho?
Quando o reconhecimento chega e não permanece
Outra experiência possível é quando existe reconhecimento:
Você é contratada/e/o. Recebe elogios. É promovida/e/o. Pessoas procuram sua opinião. Seu trabalho começa a ser reconhecido por colegas.
E mesmo assim parece difícil fazer alguma coisa com isso. Um elogio rapidamente encontra uma explicação: “estão sendo gentis”. Uma promoção pode ser atribuída às circunstâncias. Uma contratação importante produz satisfação até aparecer o medo de que tenham superestimado sua capacidade.
Mas quando existe um feedback negativo, ele imediatamente é aceito como confiável. Ele imediatamente provoca efeitos no senso de identidade. Vira prova de incompetência ou inadequação.
É nesse tipo de assimetria que experiências popularmente chamadas de síndrome do impostor podem se aproximar da autocobrança e do perfeccionismo no trabalho: evidências favoráveis precisam ser interrogadas, enquanto uma falha tem um grande peso e é entendida como uma verdade sobre si e não sobre um momento ou tarefa.
Já se perguntou o porquê determinadas informações sobre você encontram tanta resistência enquanto outras parecem estranhamente familiares?
“Eu poderia estar mais longe”
Insatisfação profissional também pode aparecer menos como rejeição daquilo que foi conquistado e mais como uma relação angustiante com o tempo.
Você olha para sua carreira e imediatamente encontra a trajetória de outra pessoa.
Alguém que se formou com você já terminou o doutorado. Uma pessoa mais jovem ocupa um cargo acima do seu. Quem entrou depois recebeu uma promoção primeiro. Nas redes profissionais, parece que todo mundo está anunciando justamente aquilo que você ainda não conseguiu.
E então a carreira começa a ser lida a partir de um calendário imaginário:
Onde eu deveria estar a essa altura?
Comparações não acontecem entre trajetórias equivalentes. Dinheiro, gênero, raça, deficiência, adoecimento, responsabilidades familiares, redes profissionais, oportunidades e acaso participam concretamente das possibilidades de uma carreira.
O mundo do trabalho também não distribui reconhecimento de maneira neutra.
Ainda assim, saber disso pode não impedir a sensação de atraso.
Porque a pessoa com quem nos comparamos pode representar mais do que alguém que conquistou determinada coisa. Às vezes ela ocupa o lugar daquela/i/e que conseguiu se tornar quem imaginávamos que já deveríamos ser.
Então o que dói não é o currículo em si.
É o encontro com quem você imaginava que seria.
Quando trabalhar bem significa receber mais trabalho
Dejours também permite desconfiar de uma explicação excessivamente individual para a ansiedade no trabalho e a insatisfação profissional.
Ou seja, ele permite que pensemos sobre como a maior parte das organizações depende de mecanismos bastante eficientes para transformar exigências coletivas em problemas individuais. Como: metas inalcançáveis podem ser vividas como incapacidade pessoal. Equipes insuficientes podem produzir culpa por não “dar conta”. Disponibilidade permanente pode receber o nome de comprometimento. Competição entre colegas pode ser apresentada como incentivo ao desempenho.
E ainda existe uma experiência particularmente conhecida por profissionais competentes: trabalhar bem resulta em receber mais trabalho.
Nesse cenário, a autocobrança não nasce isoladamente dentro do sujeito. Ela pode encontrar terreno fértil em uma organização do trabalho bastante interessada em utilizá-la.
Uma pessoa perfeccionista e com grande dedicação às tarefas. . ou que trabalha com seu tema de interesse, em um ambiente que recompensa disponibilidade ilimitada encontra poucas razões externas para parar.
Pode inclusive ser elogiada justamente por aquilo que a está adoecendo.
“Ela nunca deixa nada para depois.”
“Pode chamar que ele resolve.”
“Elu veste a camisa.”
“Ele aguenta pressão.”
O que exatamente está sendo reconhecido nesses momentos?
Competência ou capacidade de suportar condições que não deveriam ser suportadas? Criatividade e dedicação ou o quanto eu sou útil para manter o ciclo de exploração?
Trabalho e identidade
Voltamos à pergunta:
“O que você quer ser quando crescer?”
Aprendemos cedo a aproximar ser e trabalhar.
Isso ajuda a compreender porque mudanças profissionais podem adquirir uma dimensão que ultrapassa renda ou planejamento de carreira.
Quem sou quando não estou produzindo? O que uma demissão diz sobre mim? O que significa abandonar uma profissão depois de investir anos nela? Se eu não quiser mais aquilo que passei tanto tempo tentando conquistar, o que faço com a história que contei sobre mim até aqui?
Mudar pode parecer fracasso quando o mundo demanda que a trajetória seja coerente.
E permanecer também pode ser uma forma de não precisar descobrir quem seríamos fora dessa trajetória linear.
Quando gostar do trabalho também vira trabalho
Outra promessa circula com bastante facilidade:
“Faça aquilo que ama e não trabalhará nenhum dia”
Isso é uma falácia. Você pode amar sua profissão e adoecer por ela.
Pode gostar de pesquisar e odiar responder e-mails. Gostar de atender pessoas e querer silêncio depois do último atendimento. Sentir prazer em ensinar e detestar corrigir quarenta trabalhos.
O prazer no trabalho não elimina o fato de que trabalho exige esforço, encontra limites e participa de relações econômicas e institucionais que não foram construídas apenas a partir do nosso desejo.
Somos ensinadas/es/os que realização profissional significa que uma carreira deveria oferecer simultaneamente dinheiro, propósito, prazer, identidade, reconhecimento, pertencimento e uma sensação permanente de crescimento. É o que nós prometeram desde a infância.
E a insatisfação produz culpa:
“Eu consegui aquilo que queria. Por que não estou feliz?”
Como se reconhecer privilégios, oportunidades ou conquistas obrigasse à satisfação.
Pane no sistema: o que não está funcionando?
Nem toda insatisfação profissional precisa ser interpretada como dificuldade de reconhecer conquistas.
Seu salário pode ser injusto mesmo que seja alto. Sua organização pode estar adoecendo as pessoas.
Talvez você não queira mais exercer aquela profissão.
Pode ter percebido que o cargo que parecia tão desejável envolve um cotidiano que detesta.
Talvez tenha construído parte importante da carreira respondendo às expectativas de outras pessoas e só agora consiga perguntar se queria aquilo.
Transformar tudo isso em “você precisa aprender a valorizar o que tem” seria uma maneira bastante eficiente de individualizar um conflito que envolve contexto, cultura, valores e oportunidades.
Mas a existência de problemas concretos também não impede outra pergunta.
Você pode precisar mudar de trabalho e esperar que o próximo finalmente prove sua competência.
Pode merecer ganhar mais e acreditar que determinado salário finalmente fará desaparecer a comparação.
O social e o inconsciente não precisam disputar qual deles explica seu sofrimento. O inconsciente é também social.
O que ainda falta?
Talvez você tenha organizado a vida profissional em torno de uma próxima conquista que permitiria finalmente descansar, sentir segurança ou reconhecer que “deu certo”.
Isso pode ser uma força importante.
A autocobrança também pode ter participado de muitas das suas conquistas, e justamente por isso questioná-la não é simples. Como abrir mão de alguma coisa que aparentemente funcionou?
Não é sobre abrir mão do desejo de crescer e da ambição, mas sim sobre abrir espaço para se perguntar o que te faz desejar o que deseja?
O salário?
A autonomia?
O interesse pelo trabalho?
A possibilidade de escolher?
O reconhecimento?
O prestígio?
A sensação de ser alguém?
Depois de chegar lá (Aonde é “lá”?)
Insatisfação profissional não possui uma única origem.
E “lá” também não é um lugar fixo.
O que você imaginava que suas conquistas mudariam?
De quem espera reconhecimento?
Que tipo de reconhecimento consegue receber?
Quem parece estar vivendo a trajetória que deveria ser sua?
O que seria fracassar profissionalmente para você?
E se mudasse de ideia depois de chegar tão longe?
O que chamamos de “ambição” amplia ou diminui seus horizontes?
Existe um risco: que a trajetória profissional pareça oferecer uma tentadora resposta simplista e definitiva sobre quanto valemos.
Porque nenhuma promoção consegue responder uma pergunta que não começou no trabalho.
Quer pensar sobre o lugar que o trabalho ocupa na sua vida?
Se carreira, desempenho, reconhecimento e autocobrança têm atravessado a maneira como você se percebe, a análise pode ser um espaço para investigar o que está em jogo na sua relação com o trabalho, com seus ideais e com aquilo que você entende como sucesso.
Para conversar sobre sua demanda ou agendar um horário, entre em contato: https://wa.me/message/QDUDUSSEO6TLG1
Referências e indicações
- Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho: Estudo de psicopatologia do trabalho. Cortez/Oboré.
- Dejours, C. (1999). A banalização da injustiça social. Fundação Getulio Vargas.
- Curran, T. (2023). A armadilha da perfeição: O poder de ser suficiente em um mundo que sempre quer mais.



