Decidir fazer uma avaliação psicológica costuma vir acompanhado de muitas perguntas: “Quantas sessões serão necessárias?”, “Vou precisar fazer testes?”, “Preciso estudar ou me preparar?”, “O que acontece se eu não souber responder alguma coisa?”, “O resultado necessariamente será um diagnóstico?”
Parte dessas perguntas vêm da ideia de que uma avaliação psicológica funciona como uma espécie de prova em que existem perguntas certas, respostas erradas e um resultado final misterioso.
Mas uma avaliação psicológica funciona de outra maneira.
É a pergunta feita no no início do processo que guia todo o caminho. Essa(s) pergunta(s) pode(m) partir da própria pessoa, por exemplo: “por que tenho tanta dificuldade para me organizar?”, “será que algumas experiências que tenho desde a infância podem estar relacionadas ao autismo?”, ou podem ser questões feitas por outra/e/o profissional, pela escola, universidade ou mesmo pelo trabalho.
É a partir dela que começamos a decidir o que precisamos conhecer para tentar respondê-la.
1. O primeiro encontro: o que estamos tentando compreender?
A entrevista inicial é um momento para compreender por que aquela avaliação está acontecendo.
Nela, o maior interesse é conhecer você, seu contexto e entender melhor a pergunta que levou à busca pela avaliação.
Posso te fazer perguntas como: “Há quanto tempo essa questão existe?”, “Ela apareceu recentemente ou é possível reconhecer experiências semelhantes ao longo da vida?”, “O que já foi tentado para lidar com essas características ou traços que você quer investigar?”, “Existem momentos em que elas diminuem ou desaparecem?”
Também tento entender e alinhar quais são suas expectativas em relação ao processo e ao resultado da avaliação.
Você pode chegar com hipóteses bastante específicas, como a possibilidade de estar no espectro autista, ter TDAH, altas habilidades ou superdotação, algum aspecto da personalidade. Em outros casos, apenas a percepção de que alguma coisa não está fazendo sentido e o desejo de compreendê-la melhor.
Nenhuma dessas perguntas precisa estar perfeitamente formulada antes de começar.
A própria avaliação pode ajudar a transformar uma pergunta inicialmente muito ampla ou muito fechada em uma questão que consiga representar melhor aquilo que precisa ser investigado.
2. Conhecer uma história, não apenas os sintomas atuais
“Se tem placa, tem história”
Já ouviu esse ditado? Bom, nós seres humanos também somos assim. Nossas perguntas e questões existenciais têm história.
Por isso, certamente é importante conversarmos sobre sua infância e adolescência, seu desenvolvimento, relações familiares, experiências escolares, trabalho, relacionamentos, saúde, interesses, formas de aprender, acontecimentos importantes e maneiras encontradas ao longo da vida para lidar com dificuldades.
Uma pessoa adulta geralmente chega à avaliação após décadas criando estratégias, encontrando ambientes nos quais funciona melhor ou pior, recebendo interpretações sobre quem é e, muitas vezes, tentando se adaptar ao que era esperado dela.
Algumas dificuldades podem ter se tornado menos visíveis justamente porque houve muito trabalho para torná-las menos visíveis.
Por isso, compreender alguém não é simplesmente registrar aquilo que aparece durante uma sessão.
3. Planejar a avaliação
O formulário e a primeira entrevista ajudam a construir o planejamento da avaliação.
É nesse momento que começamos a decidir quais informações serão importantes para a avaliação, quais instrumentos podem contribuir para responder à(s) pergunta(s) e se será importante recorrer a outras fontes (documentais: como diários ou boletins escolares ou humanas: como parentes que estiveram presentes durante seu desenvolvimento, parecerias românticas e/ou afetivo-sexuais ou amizades, profissionais de saúde: psicólogas/es/os, psiquiatras etc).
Por ser um processo dinâmico, é possível que sejam acrescentados ou retirados testes durante a avaliação para entender melhor certos aspectos que podem ter aparecido nas sessões ou em outros testes.
Uma avaliação é uma investigação. E uma investigação pode produzir perguntas que não existiam no início.
Uma hipótese inicialmente importante pode perder força. Outra pode aparecer. Um resultado inesperado pode indicar que precisamos investigar melhor determinada área. Uma informação sobre a infância pode modificar a maneira como entendemos uma característica atual.
Por isso, o planejamento funciona como um caminho inicial, não como um roteiro que precisa ser seguido independentemente daquilo que encontramos.
4. Testes psicológicos, escalas e outras fontes de informação
Testes psicológicos podem fazer parte da avaliação, mas avaliação psicológica não é sinônimo de aplicação de testes.
Dependendo da demanda, podem ser utilizados testes psicológicos, tarefas cognitivas, escalas, questionários, entrevistas estruturadas ou semiestruturadas e outros recursos.
Cada instrumento permite observar determinadas dimensões do funcionamento psicológico e possui também seus próprios limites.
Um resultado nunca deveria ser interpretado isoladamente como uma verdade sobre a pessoa.
Um desempenho abaixo do esperado em determinada tarefa, por exemplo, precisa ser compreendido junto a outras informações. Como a pessoa chegou naquele dia? Aquela dificuldade também aparece em sua vida cotidiana? Outros instrumentos apontam na mesma direção? Há alguma condição que possa ter interferido no resultado? A história daquela pessoa é compatível com a interpretação que estamos construindo?
Em alguns processos, também pode fazer sentido analisar documentos anteriores ou, com consentimento, conversar com familiares, profissionais ou outras pessoas que possam contribuir com informações relevantes.
Tudo isso tem como objetivo encontrar fontes diferentes que permitam olhar para uma mesma questão por diferentes perspectivas.
5. A análise não acontece apenas no final
Durante todo o processo, as informações vão sendo comparadas e integradas.
O que apareceu nas entrevistas conversa com os resultados dos instrumentos? O que a pessoa relata atualmente é coerente com sua história de desenvolvimento? Existem informações aparentemente contraditórias? Se existem, o que essa contradição pode nos dizer?
Essa etapa de análise integrada é uma das partes mais importantes da avaliação psicológica.
Isso porque pessoas não são resultados de testes.
Um escore pode contribuir para uma interpretação, mas não substitui a compreensão de como determinada característica aparece naquela pessoa, em quais contextos, desde quando e com quais consequências.
Também é possível que diferentes hipóteses expliquem experiências parecidas.
Dificuldades de atenção, por exemplo, podem aparecer em contextos muito diferentes. Isolamento social pode adquirir sentidos distintos em histórias distintas. Um desempenho cognitivo elevado não nos diz, sozinho, como aquela pessoa consegue utilizar seus recursos no cotidiano.
Avaliar exige sustentar essas possibilidades antes de chegar a uma conclusão.
6. A devolutiva: construir uma compreensão do que encontramos
A devolutiva acontece ao final do processo de avaliação. Ela é um espaço para conversar sobre a compreensão construída ao longo da avaliação.
Quais hipóteses foram consideradas? O que encontramos? O que parece explicar melhor as dificuldades que motivaram a avaliação? Quais potencialidades apareceram? Existem questões que permaneceram em aberto? Há limites no que conseguimos concluir?
Quando existe uma conclusão diagnóstica, ela também precisa ser compreendida dentro dessa história.
Um diagnóstico pode nomear experiências, permitir acesso a direitos, orientar tratamentos e oferecer novas possibilidades de compreensão de si. Mas uma pessoa não começa a existir no momento em que recebe um nome para aquilo que vive.
A avaliação precisa conseguir fazer o movimento contrário: utilizar categorias e conhecimentos psicológicos para compreender aquela pessoa, sem reduzir a pessoa à categoria.
7. Documento psicológico e recomendações
Ao final também é elaborado um documento psicológico.
O tipo de documento e as informações que ele deve conter dependem da demanda e das normas que regulamentam a atuação profissional.
Esse documento apresenta de maneira organizada aquilo que pôde ser compreendido durante o processo e, quando pertinente, as conclusões e recomendações decorrentes da avaliação.
Essas recomendações também não deveriam funcionar como uma lista automática associada a determinado diagnóstico.
Podem envolver psicoterapia, acompanhamento médico ou de outros profissionais, adaptações no ambiente de estudo ou trabalho, estratégias para o cotidiano, investigação complementar ou outros recursos que façam sentido para aquela pessoa.
Em alguns casos, uma das conclusões possíveis também é que ainda não existem elementos suficientes para responder definitivamente a determinada pergunta.
Reconhecer os limites de uma avaliação faz parte de realizá-la com rigor.
Então, quanto tempo dura uma avaliação psicológica?
Não existe uma quantidade de sessões que sirva para todas as avaliações.
A duração depende da pergunta que estamos tentando responder, da complexidade da investigação, dos instrumentos utilizados, das fontes de informação necessárias e daquilo que aparece durante o próprio processo.
Por isso, uma estimativa pode ser construída a partir dos primeiros encontros, mas o processo precisa conservar alguma abertura para aquilo que for encontrado.
Mais importante do que cumprir uma bateria fixa de procedimentos é conseguir responder, com responsabilidade, à pergunta que deu origem à avaliação.
No fim, uma avaliação psicológica não deveria apenas produzir informações sobre alguém.
Ela pode oferecer uma oportunidade de reunir fragmentos de uma história que, até então, talvez parecessem desconectados, como: dificuldades e recursos, maneiras de se adaptar, experiências passadas, potencialidades, apoios e formas particulares de estar no mundo. E a partir disso construir, junto à pessoa avaliada, uma compreensão que faça sentido para sua vida.
Conheça mais sobre a avaliação psicológica https://saturnofernandes.com.br/avaliacao-psicologica/
Acesse o Formulário para iniciar a Avaliação comigo https://forms.gle/cKzfJ9kqf1358aV77



