Escolher alguém para contar sobre a própria vida já é uma tarefa difícil.
Sendo parte de alguma minoria, outras perguntas aparecem antes mesmo da primeira sessão:
“Será que vou precisar explicar o que significa ser uma pessoa não binária?”
“Posso falar sobre minha sexualidade sem que tudo seja interpretado a partir dela?”
“Essa pessoa vai respeitar meu nome e meus pronomes?”
“Se eu falar sobre conflitos relacionados ao meu gênero, isso vai ser entendido como sinal de que eu não sou realmente trans?”
“Vou precisar ensinar minha/e/meu psi para conseguir ser escutada/e/o?”
Muitas pessoas da comunidade acabam procurando especificamente por psicoterapia LGBTQIA+, por um psicólogo para pessoas LGBTQIA+ ou conte com sua rede de contatos para se assegurar sobre a/e/o profissional.
Essas buscas certamente ajudam muito.
Mas o que exatamente estamos procurando quando procuramos um espaço seguro para falar?
Acolhimento é mais do que acertar seus pronomes
Seu nome e seus pronomes precisam ser respeitados. Isso não é uma técnica especializada de atendimento à população LGBTQIA+. É o mínimo esperado de uma relação profissional.
Ainda assim um/a/e profissional pode utilizar corretamente os pronomes e, ainda assim, partir da ideia de que a cisgeneridade é a experiência mais natural, estável ou desejável.
Pode dizer que é aliada/e/o ou mesmo faz parte da comunidade, mas entender a orientação sexual e a identidade de gênero dissidente como resultados de algum trauma.
Ou que aceita relações não monogâmicas e interpretar qualquer conflito entre as pessoas envolvidas como evidência de que “no fundo, esse tipo de relação não funciona”.
E respeitar a bissexualidade de alguém enquanto espera que, em algum momento, essa pessoa escolha “de verdade”.
A patologização nem sempre aparece de forma explícita, ela também está nas perguntas que só são feitas a determinadas pessoas, nas hipóteses consideradas mais rapidamente e naquilo que a/eo profissional entende como sinal de “saúde” e “normalidade” antes mesmo de conhecer quem está diante dele.
Quando você precisa ensinar para conseguir ser escutada/e/o
Existe uma diferença entre explicar algo sobre você e precisar oferecer uma aula para a/e/o psi.
Toda análise exige explicações.
Você provavelmente precisará contar o que determinada relação significa, explicar uma piada interna, apresentar pessoas importantes da sua vida, falar sobre sua comunidade, descrever experiências que a/e/o profissional nunca viveu.
Não existe formação capaz de fazer alguém conhecer sua experiência antes de te conhecer.
Mas isso é diferente de sentir que precisa explicar o termo “não-binariedade”, “linguagem neutra” ou a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Faz sentido se você está explicando a sua relação particular com as nomenclaturas e identificações, mas não faz sentido quando você começa a sentir que está dando uma aula para possibilitar a escuta. Precisar justificar que pessoas assexuais podem construir relacionamentos, explicar repetidamente que sua parceria usa determinados pronomes ou como a não-monogamia não é um desvio sexual pode ser cansativo e muitas vezes violento.
Você chegou para ser escutada/e/o, mas começa a precisar cuidar das condições para que a/e/o profissional consiga te escutar.
E pode começar a selecionar o que vale a pena levar para a sessão.
“Isso vai exigir muita explicação.”
“Melhor não entrar nesse assunto.”
Quando uma parte importante da sessão passa a ser usada para administrar o desconhecimento ou as reações de quem deveria estar te escutando, o que deixa de poder ser dito?
Ser LGBTQIA+ e ser + além
Uma pessoa LGBTQIA+ pode procurar psicoterapia ou análise por inúmeros motivos.
Pode estar de luto, odiar o próprio trabalho, não conseguir terminar a dissertação, pode estar apaixonada, pode ter uma relação difícil familiares, pode estar tentando entender por que repete determinadas relações, pode estar deprimida, ansiosa, exausta, feliz, confusa, entediada.
Parece óbvio, mas determinadas identidades podem adquirir tamanho destaque no olhar profissional que passam a organizar qualquer interpretação sobre a pessoa.
Uma pessoa trans briga com a família e o conflito rapidamente se torna “sobre ser trans”.
Ou uma pessoa não binária está angustiada e o gênero aparece como explicação antes que alguém pergunte sobre o que ela está angustiada.
Identidade de gênero e orientação sexual participam da nossa história e da forma como circulamos pelo mundo. Podem atravessar relações familiares, trabalho, corpo, desejo, violência, pertencimento e a maneira como aprendemos a nos reconhecer.
Mas atravessar uma história não significa explicar uma pessoa inteira.
Você precisa poder falar sobre ser LGBTQIA+ e também precisa poder falar sobre qualquer outra coisa.
Precisa poder afirmar sua identidade e também deixá-la em aberto quando precisar.
O que pode ser perguntado?
Existe um cuidado importante do outro lado.
Uma escuta não patologizante não é uma escuta que concorda automaticamente com tudo ou que transforma alguns assuntos em territórios nos quais nenhuma pergunta pode ser feita.
Em uma análise, gênero e sexualidade também podem ser pensados.
“Como você percebe seu corpo?”
“O que mudou quando começou a se reconhecer dessa maneira?”
“O que você deseja quando imagina determinada transformação?”
“Como você construiu sua relação com a masculinidade, a feminilidade e as outras inúmeras formas de exstir?”
“Como é a sua relação singular com as palavras que você usa para se apresentar? Qual é a sua relação com a sua identidade?”
Essas perguntas podem abrir associações.
São diferentes de:
“Será que você não está fazendo isso para fugir da feminilidade?”
“Você tem certeza de que não é apenas uma fase?”
“Isso não pode ser consequência de um trauma?”
Nos dois casos existem pergunta, mas não partem do mesmo lugar.
Uma delas coloca o significado daquela experiência em questão para que a pessoa possa falar sobre si. Não tem como visão de mundo ou destino a normatividade ou a adaptação. Apenas estimulam associações e curiosidade sobre si.
A outra coloca a legitimidade da própria pessoa em questão para que ela prove quem é.
Você não deveria precisar chegar à análise com sua identidade perfeitamente resolvida para ser respeitada/e/o.
Pode ter dúvidas, experimentar nomes e pronomes, se contradizer, descobrir que uma palavra que fazia sentido há cinco anos já não faz, desejar realizar uma transição social sem fazer intervenções corporais, desejar algumas modificações corporais e não outras, inclusive se abrir para descobrir coisas sobre si que não imaginava encontrar.
Uma escuta afirmativa não precisa saber antecipadamente onde você deve chegar.
Conhecimento não é saber quem você é
Talvez pareça contraditório dizer que um/a/e profissional precisa conhecer questões LGBTQIA+ e, ao mesmo tempo, não deve acreditar que sabe o que sua identidade significa.
Mas são coisas bastante diferentes.
Conhecer sobre identidade de gênero, orientação sexual, processos de transição, formas de violência e discriminação, saúde LGBTQIA+, configurações relacionais e debates contemporâneos oferece referências para a escuta.
Esse conhecimento pode impedir que a/e/o profissional transforme falta de formação em uma hipótese sobre você.
Mas saber o que significa o termo “não binário” não significa saber o que ser não binárie significa para você.
Uma categoria pode permitir reconhecimento, pertencimento, acesso a direitos e a possibilidade de compartilhar experiências, mas ela não encerra a pergunta sobre quem é aquela/i/e que a utiliza.
Talvez seja justamente por conhecer suficientemente essas questões que um/a/e psi possa não transformar você em representante de uma categoria.
“Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes”
Existe ainda outro risco quando falamos em saúde mental LGBTQIA+: transformar em característica individual aquilo que foi produzido em uma relação com o mundo.
Se uma pessoa trans sente medo de usar determinado banheiro, podemos compreender de forma aprofundada sua ansiedade, mas também precisamos perguntar se ela já foi hostilizada em banheiros.
Um adolescente gay que monitora constantemente seus gestos em determinados espaços, pode estar agindo de maneira que condiz com sua história psíquica ou com o meio em que está inserido.
Se uma pessoa não binária está exausta de explicar sua identidade no trabalho, talvez a melhor via não seja desenvolver maior tolerância à frustração.
Nem todo sofrimento diante de uma situação violenta é sinal de que existe algo a ser corrigido em quem sofre.
Isso também significa não reduzir pessoas LGBTQIA+ à discriminação que viveram.
Há desejo, fantasia, conflito, prazer, responsabilidade, contradição e inconsciente.
Uma escuta que atribui tudo à LGBTfobia pode achatar uma pessoa tanto quanto aquela que finge que LGBTfobia não existe. O contexto importa justamente porque a pessoa não existe fora dele.
Você consegue não saber?
O que acontece quando essa/i/e psi diante de você não sabe algo?
Consegue perguntar? Reconhece que não conhece determinado termo sem transformar a sessão em uma aula? Estuda depois? Aceita correção sem começar a se justificar?
Consegue encontrar algo que não corresponde ao que imaginava sobre pessoas LGBTQIA+ e continuar curiosa/e/o?
Nenhuma/e profissional sabe tudo. A questão não é procurar alguém incapaz de errar. É encontrar alguém que saiba errar, que saiba refazer e que saiba se responsabilizar.
Como perceber se esse espaço funciona para você?
Antes da primeira sessão, algumas informações podem ajudar.
Você pode observar como a/e/o profissional apresenta seu trabalho, se menciona experiência ou formação com população LGBTQIA+, qual linguagem utiliza e como fala sobre gênero, orientação sexual e sexualidade.
Também pode perguntar diretamente.
“Você tem experiência atendendo pessoas trans?”
“Como você trabalha questões relacionadas à identidade de gênero?”
“Você atende relações não monogâmicas?”
“Você tem experiência com pessoas LGBTQIAPN+?”
Não existe uma resposta secreta que garanta que aquele será um bom encontro. O próprio processo também produz informações.
Você começou a evitar determinados assuntos?
Percebe que prepara explicações antes das sessões?
Sente que precisa convencer a/e/o profissional de que sua identidade é legítima?
As interpretações parecem partir do que você diz ou de ideias que a/e/o psi já tinha sobre pessoas que compartilham alguma das suas identidades?
Existe espaço para discordar?
Quando você corrige alguma coisa, o que acontece?
Você consegue trazer uma experiência contraditória sem medo de que ela seja utilizada como prova contra sua identidade?
Uma boa análise não é aquela em que você nunca se sente desconfortável. Algumas coisas que encontramos sobre nós em análise são bastante desconfortáveis.
A questão é:
o desconforto aparece porque alguma coisa sua pôde ser encontrada (ou perdida) ou porque você precisa se defender do próprio espaço em que deveria poder falar?
Você não precisa chegar à terapia sabendo explicar quem é
Talvez você ainda esteja tentando entender sua orientação sexual ou tenha começado a pensar sobre sua identidade de gênero recentemente. Pode ser que saiba há décadas sobre tudo isso, mas nenhuma palavra pareça suficiente, ou as palavras que você utiliza hoje sejam diferentes das que utilizava antes.
Você não precisa organizar tudo isso em uma narrativa coerente antes de procurar a análise.
A incoerência é humana e isso todas/es/os somos.
Também não precisa representar bem uma comunidade, conhecer todos os termos, ter uma posição sobre todos os debates ou responder de maneira pedagógica às perguntas de alguém.
Uma análise pode ser justamente um lugar para não saber e poder experimentar palavras, encontrar seus vazios, suas insuficiências, seus descabimentos e contradições próprias e da comunidade.
Uma análise ou psicoterapia afirmativa é aquela em que existe conhecimento suficiente para que sua identidade não precise ser patologizada, explicada ou defendida e abertura suficiente para que ainda possamos perguntar:
o que tudo isso significa para você? Como isso modifica/modificou sua vida e sua trajetória? Qual é a sua relação com esses termos e com essa comunidade? Qual é a sua história? Como você sofre? Em que momentos sente prazer em viver? Como constróis suas relações consigo e com as pessoas ao seu redor? Como aprendeu a se relacionar?
No final das contas, são perguntas que a análise levanta sobre todas as pessoas que topam entrar em análise. E é assim que somos humanizadas/es/os.
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